Após passar um tempo na Palestina e na Síria, minha primeira visita ao Líbano foi em 2008, logo depois da Guerra Israel-Líbano. Naquele período, era comum avistar marcas de balas nos prédios.

Também era frequente a revista de civis pelo exército e vários soldados me paravam na rua para me interrogar. Não me senti seguro em explorar o país, restringi-me em ficar somente na capital, Beirute.

Em outubro de 2015, resolvi voltar ao Líbano e dessa vez conhecer melhor suas maravilhas. São duas atrações no país que são imperdíveis de conhecer. A primeira é o templo de Bacchus, que é o maior templo do mundo remanescente da herança greco-romana e que está no meu livro As Melhores Atrações Culturais do Mundo. O templo está localizado na cidade de Baalbek, que também leva seu nome. O nome é derivado do deus Baal que é bastante citado no Antigo Testamento da Bíblia. A segunda atração é a belíssima caverna Jeita Grotto que, na minha opinião, é a caverna mais bonita do mundo. Infelizmente, tirar foto do seu interior é proibido, mas a atração faz parte do meu livro As Melhores Atrações Naturais do Mundo. Há outros destinos turísticos no país que também merecem ser conhecidos, como: Biblos, Sidon e Tiro.

Visitando a capital Beirute

 

Durante o tempo que passei no Líbano, fiquei hospedado, e muito bem-hospedado, na casa de uma amiga que conheci em 2013 no Mianmar. Proprietária de uma das maiores agências de viagens do país, ela me levava para sair nos melhores restaurantes e bares da capital. Tive até o privilégio de ir a um casamento da alta sociedade libanesa e, pessoalmente, foi o casamento mais chique que já presenciei em minha vida.

O tempo que passei no Líbano foi incrível, e de todas as peripécias que vivenciei no país, a que mais se destaca foi minha ida à cidade de Baalbek. Além, de estar bem próximo à fronteira com a Síria, o local é a sede do grupo militante islâmico xiita Hezbollah. Mas o que eu podia fazer? Eu tinha que visitar Baalbek, pois seu templo está no meu livro. Às vezes, minha coragem transpassa a razão. De novo, arrisquei a minha vida e dessa vez poderia ser sequestrado.

Vista de cima do castelo de Biblos

Entrei em um transporte público de Beirute e fui em direção ao meu destino, que está a 89km (2 horas de van), ao leste da capital. Foram as duas horas mais longas da minha vida. No veículo havia dois homens meio maltrapilhos, com um jeito estranho e com o semblante mau no rosto. O maior problema era que eles não paravam de olhar para mim e cochichar. É bom lembrar que Baalbek está localizado bem próxima a Síria e quando a visitei, o país estava no ápice da guerra, com isso o fluxo de refugiados e de pessoas com má intenções nesta região cresceu.

Então, bolei um plano para que nada de ruim acontecesse comigo. O que eu poderia fazer nesse caso? Comecei a analisar os fatos. Eu estava dentro de uma van, percorrendo uma área montanhosa, perigosa, indo em direção à cidade-sede do grupo extremista Hezbollah e havia duas pessoas que supostamente queriam fazer algo de mau comigo. Para piorar, já próximo a meu destino, os homens começaram a conversar com o motorista e com mais um que estava no veículo. Agora a situação era a seguinte. Havia quatro homens, incluindo o motorista, que me encaravam, cochichavam e conversavam no celular.

Comecei a meditar e a orar. Então me perguntei como eu poderia sair dessa circunstância e cheguei a um plano, que teria que fazer amizade no ônibus. Vi uma família com um filhinho, sentei ao lado deles e ofereci uma bolacha para o menino. Sempre trago na mochila pacote de biscoito e balinhas quando estou viajando por países em desenvolvimento. Já consegui muitas hospedagens de graça com essas guloseimas, mas, nesse caso, eu não queria dormir na casa deles, eu ia voltar de tarde para a capital. Só precisava chegar bem ao templo que queria conhecer.

Ao mesmo tempo, comecei a pensar no que aconteceria se o plano falhasse, e no último caso eu poderia até ser sequestrado. Como minha família pagaria milhões de dólares em resgate? Se eles soubessem que sou brasileiro, até que pediriam menos dinheiro, às vezes uns US$500 mil, mesmo assim, eu não teria como pagar. O problema era que eu estava viajando com o meu passaporte italiano e, nesse caso, para europeu, a cifra subiria para mais de US$ 1 milhão.

Bem, quando ofereci bolacha para o menino, com um jeitinho brasileiro de puxar assunto, começamos a conversar, e uma amizade aconteceu. Passamos o restante da viagem conversando e rindo. Dava para ver a cara de decepção dos outros homens. Agora eu estava com essa família. Creio que os homens não me agrediriam ao lado deles.

Dentro da medina da cidade de Sidon

Quando chegamos a Baalbek, os homens saíram primeiro da van e ficaram esperando do lado de fora. Claro, pedi para a família me acompanhar até o templo. Assim, caminhamos juntos ladeira abaixo. Os homens desistiram e pegaram outra direção. No caminho até o templo, havia vários homens vendendo camisas e acessórios do Hezbollah e pediam para eu comprar para ajudá-los. Que situação! Claro que não comprei, mas fiquei na incógnita. E se eu não comprasse, e eles achassem ruim? E se eu tivesse comprado e chegasse à capital com essa camisa? E se a polícia ou algum membro de outro partido me visse com ela? Esse foi apenas um caso do que me aconteceu no Líbano que jamais esquecerei.